Kurt Jacobsohn e a emergência da
Bioquímica em Portugal (1929-1979)
Trajectos e reflexões no
centenário do seu nascimento
Isabel Amaral
Departamento de Ciências Sociais Aplicadas
Faculdade de Ciências e Tecnologia/UNL
Quinta da Torre
2825-516 Caparica
[email protected]
O conceito de Escola de
Investigação




O estudo de escolas de investigação foi efectuado a partir da década de 70, por
historiadores e sociólogos da ciência como forma de analisar a emergência de novas
áreas disciplinares
Do conjunto de autores que definiram critérios e aplicaram este conceito, citam-se G.
Geison e J. Fruton como autores de referência no âmbito da história da ciência:
“Small groups of mature scientists pursuing a reasonably coherent programme of
research side-by-side with advanced students in the same institutional context
engaging in direct, continuous social and intellectual interaction” (Geison, 1981)
“A colectivity of scientists that achieved sufficient recognition to conduct a
independent research program..., have been composed of advanced predoctoral
students, postdoctoral students, associates and guest, and technical assistants.
Through their social and intellectual interaction with the leader have had the
opportunity to learn laboratory techniques, to acquire theoretical knowledge and, by
participating actively in the research program of the laboratory, to generate new
scientific results and ideas” (Fruton, 1990)
A escola de investigação de Kurt Jacobsohn
O Líder – elementos biográficos
 Os seguidores
 Os espaços laboratoriais
 O programa de investigação
 Reconhecimento internacional
 Impacto na FCUL e no IGC
 Reflexões Finais
 Links úteis

O Lider - Kurt Jacobsohn (1904-1991)







Ascendência Judaica.
Licenciatura em Química, Universidade de Berlim, 1926
Assistente de Carl Neuberg no
Kaiser Wilhelm Institut für
Biochemie, 1925
Director da Secção de Química Biológica no IRC desde 1929
Iniciou-se em estudos de síntese orgânica mas rapidamente se
escolheu a enzimologia como área priveligiada de investigação
O grupo de investigação que reuniu tinha inicialmente 4 médicos da
FML; a partir de 1939 contou com a colaboração de alguns colegas
da FCUL; na década de 50 alargou-se a alguns alunos e assistentes
do departamento de química da FCUL
O grupo nunca teve mais de 7 membros mas alguns deles
permaneceram algumas décadas a trabalhar lado a lado com o líder
não evidenciando por isso qualquer ambição de independência
científica
Kurt Jacobsohn - breves elementos biográficos
O Instituto Rocha Cabral


Enquanto membro do corpo científico do IRC viu a sua
investigação condicionada pela situação financeira deste
instituto desde a sua formação.
O IRC criado por vontade testamentária de Bento da Rocha
Cabral tinha como principal fonte de rendimento e sustentação,
alguns títulos na bolsa do Brasil, país onde Rocha Cabral viveu.
 1925-1937 (crise brasileira de 30)
 1939-1945 ( as consequências da guerra – isolamento do
mundo que se traduziu na incapacidade de reparar ou
adquirir novos equipamentos laboratoriais, de promover o
intercâmbio científico e de fazer face às exigências básicas
da comunidade intelectual do instituto)
Kurt Jacobsohn - breves elementos biográficos
O Instituto Rocha Cabral




> 1952 (alunos da FCUL – face à situação de penúria em que o
IRC vivia, e à necessidade de desenvolver a investigação, a
direcção pediu apoio financeiro à FCG para modernizar o
equipamento laboratorial e sustentar a investigação no grupo de
Kurt Jacobsohn
A FCG financiou a investigação entre 1958 e 1953 ao mesmo
tempo que criou condições para ela própria criar um Instituto de
Ciência a partir de um grupo de microbiologia que incluia Nicolau
van Uden e Isabel Spencer que utilzou as instalações do IRC
De 1963 a 1974 o IRC foi perdendo capacidade de financiar a
investigação. Com a criação do Instituto Gulbenkian de Ciência a
FCG deixou de patrocianr o IRC; com as nacionalizações do pós
25 de Abril o IRC viu-se obrigada a deixar de ter investigação
própria
1976 – Kurt Jacobshon acede inserir o seu grupo de investigação
num dos centros de investigação do INIC, o Centro de Estudos
de Bioquímica e Fisiologia Animal da Universidade de Lisboa, que
deu assim continuidade à investigação bioquímica
Kurt Jacobsohn - Actividade
Pedagógica



Em 1935, nacionalidade portuguesa , equivalência de doutoramento pela UL
Foi convidado por Pereira Forjaz para exercer a docência de química na FCUL
 Curso Teórico de Noções Gerais de Química-Física (1936-1942)
 Curso de Análise Química (1942-1947) e Química Orgânica (1942)
 Curso de Química Médica (1948-1954)
 Cátedra de Química Orgânica ,1955
 Jubilação, 1974
Autor e co-autor de alguns manuais de ensino
 Química Geral, 1936, 1942
 Química Orgânica, 1938
 Introdução à Química Orgânica, 1944, 1951
 Introdução à Química-Física , 1946, 1955
 Lições de Bioquímica Orgânica , 1953
Kurt Jacobsohn - breves elementos
biográficos

Cargos públicos:







Secretário da FCUL, 1956
Bibliotecário,1962-1964
Vice-Reitor da UL, 1966-1974
Vice-Director do IRC, 1958
Delegado da Junta de Energia Nuclear, promotor de reuniões
científicas no âmbito da utilização de radioisótopos em
mecanismos biológicos
Secretário-Geral do Centro de Estudos de Bioquímica e Fisiologia
Animal da UL, 1977
Prémios

Grã-Cruz da Ordem de Mérito da República Federal da Alemanha
Kurt Jacobsohn
Sociedades Científicas

Sociedades Científicas



Société de Chimie Biologique de Paris (membro)
Sociedade Portuguesa de de Química e Física
(presidente e secretário-geral)
Sociedade Portuguesa de Biologia (secretário)


Director dos Archives Portugaises des Sciences Biologiques
Sociedade Portuguesa de Bioquímica (não houve
envolvimento directo mas quando a responsabilidade
da SPB deixou de estar sob alçada da Medicina, em
1974, Deodata de Azevedo assumiu funções como
secretária da SPB)
Kurt Jacobsohn
Periódicos Científicos

Editor da Enzymologia (países de língua

portuguesa e espanhola), Carl Oppenheimer
Consultor Científico, Archives of

Colaborador regular de alguns periódicos:
Biochemistry



Vitamine, Fermente, Hormone, Emil Abderhalden
Experimental Medicine and Surgery, Bruno Kisch
Biological Abstracts, onde divulgou, a convite da
Universidade da Pensilvânia, os trabalhos dos
bioquímicos portugueses, a partir de 1949
Jacobsohn – Publicações
Científicas
70
N. of Publications
60
50
40
30
20
10
0
Journals
1
Actualid ad es Bio ló g icas
Co ng res s o s , Simp ó s io s
Anais Azeved o s
Archives Po rtug ais es d es Sciences Bio lo g iq ues
Archives o f Bio chemis try
Archives o f Bio chemis try and Bio p hys ics
Arzneimittel-Fo rs chung
Berichte d er Deuts chen Chemis chen Ges ells chaft
Bio chemis che Zeits chrift
Bo letim d a Acad emia d as Ciências
Bulletin d e la So ciété d e Chimie Bio lo g iq ue
Bulletin d e la So ciété Po rtug ais e d es Sciences Naturelles
Ciência
Co mp tes Rend us d e la So ciété d e Bio lo g ie d e Paris
Curriculo s , Dis s ertaçõ es
Die Naturwis s ens chaften
Enzymo lo g ia Acta Bio catalytica
Enzymo lo g ia
Exp erimental M ed icine and Surg ery
Fermentfo rs chung
Gazeta d e Fís ica
Gazeta M éd ica Po rtug ues a
Internatio nal Ab s tracts o f Bio lo g ical Sciences
Pub licaçõ es Particulares (IRC; J unta Inves tig açõ es Ultramar)
Lis b o a M éd ica
M ed icina
Naturalia
Po rtug aliae Acta Bio lo g ica
Revis ta d e Química Pura e Ap licad a
Revis ta d a Faculd ad e d e Ciências d e Lis b o a
Revis ta Po rtug ues a d e Química
Scientia
Zeitchrify fur Anaytis che Chemie
Zeits chrift fur Immunitats fo rs chung
Ob ras Did ácticas
Kurt Jacobsohn
Produção Científica
9%
48%
40%
3%
Dos cerca de 300
trabalhos que
publicou, 240 foram
artigos científicos, e
destes, 48% foram
publicados em
periódicos
estrangeiros da
especialidade
Publicações em periódicos nacionais generalistas
Publicações em periódicos nacionais da especialidade
Publicações em periódicos estrangeiros generalistas
Publicações em periódicos estrangeiros da especialidade
Kurt Jacobsohn
Retrato
Na comemoração dos 25 anos do Instituto Rocha Cabral, em 1947
Da esquerda para a direita, Kurt Jacobsohn, Joaquim Fontes, Liesel
Jacobsohn, Ferreira de Mira, Moniz Pereira e Deodata de Azevedo
Kurt Jacobsohn
Retrato


O Sr. Dr. K. P. Jacobsohn exerceu a sua actividade neste instituto desde
1925 a 1929... além da sua actividade científica, soube ensinar estrangeiros
e investigadores mais novos, mostrando qualidades pedagógicas
excelentes. Saiu deste Instituto, em virtude de ir exercer uma função
honrosa no Instituto de Investigação Científica Rocha Cabral, em Lisboa.
Pelas altas qualidades do seu carácter, pela sua boa vontade e
camaradagem, o Sr. Dr. Jacobsohn grangeou a amizade que todos que
lamentam a sua saída e desejam... um bom êxito do seu trabalho no
estrangeiro. ( Carta de despdida do KWIB por Carl Neuberg em1929)
Vão-se cumprindo os ritmos biológicos duma vida humana que não pode
parar, nem sequer abrandar, sob pena de comprometer o mecanismo
maravilhoso que ela representa… não ignoramos o prejuízo que daí adviria,
tanto para o Instituto como para a irrequietude do espírito, habituado
desde sempre a um ritmo que não aceita pausas. (Cruz, J. M., Homenagem
a Kurt Jacobsohn, Lisboa, Instituto Rocha Cabral, 1979, p.3.)
Membros da Escola
Identificação por ordem cronológica
Resultados científicos
Discípulos e
Colaboradore
s
Área de
Investiga
ção
Tempo
passado no
laboratóri
o
Teses,
Monografias e
material
Didáctico
Publicações
Em nome
individual
Com o lider
Com outros
colegas
Envolvimento dos discípulos em instituições e sociedades científicas
Estatuto
Discípulo
s
Soc. Port.
Sciencias
Naturais
(1907)
Soc. Port.
Biologia
(1920)
Soc. Chimie
Biologique
de Paris
Soc. Port.
Física e
Química
Soc. Port.
Bioquímica
Outra
s
Socied
ades
Membros da Escola de Kurt Jacobsohn
Envolvimento dos discípulos em actividades editoriais
Editorial Status
Discípulo
s
Bull. Soc.
Port.
Sciences
Naturelle
s
Archives
Portugais
es des
Sciences
Biologiqu
es
Travaux de
Laboratoire,
Biological
Actualities
Revista
Portuguesa
de Química
Arquivo
s
Portugu
eses de
Bioquím
ica
Outras
publicações
Percursos Profissionais
Discípulos e
Colaboradores
Cargos Públicos
Prémios de Carreira
Membros da Escola


Discípulos, colaboradores e investigadores
do IRC (18/6/5)
Discípulos



Núcleo Duro (6)
Núcleo Satélite Principal (5)
Núcleo Satélite Secundário (7)
A dispersão científica dos membros
do grupo
3%
34%
63%
Medicina
Química
Biologia
Membros do grupo
O Instituto Rocha Cabral
O Instituto Rocha Cabral foi criado
em 1922 por vontade testamentária
de Bento da Rocha Cabral, no edifício
que tinha sido sua residência.
Após adapatações logísticas e
jurídicas efectuadas pelo seu primeiro
director, Ferreira de Mira, o instituto
começou a funcionar como centro de
investigação a partir de 1925
Os Laboratórios no Instituto Rocha Cabral

Vários espaços no IRC que foram sendo
sucessivamente
conquistados
à
investigação das outras secções de
investigação do instituto
Um dos laboratórios
de investigação no
IRC. Fotografia
datada da década de
40.
Sala
de ...
Os laboratórios
O financiamento da investigação



IRC
FCG (1958-1966)
INIC (1976)
Fotografia
do gabinete
de Kurt
Jacobsohn
datada de
1998
Laboratório
Deodata de
Azevedo
inaugurado a
... . Na
fotografia são
visiveis, .... E
Deodata de
Azevedo
Programa de Investigação

O programa de investigação tinha três vertentes de
abordagem:



Estudos de síntese química, de diferentes compostos
intervenientes em reacções catalisadas por enzimas
Análise estrutural e o estudo cinético de diversos enzimas pouco
estudados na época
Estudo do metabolismo celular, em particular do metabolismo
lipídico, procurando justificar o modo de acção dos enzimas, do
ponto de vista da regulação metabólica

Técnicas especifícas de doseamento de diferentes macromoléculas
biológicas, algumas delas desenvolvidas pela própria “escola”,
outras optimizadas.

Polarimetria,
fluorimetria,
dispersão
óptica
espectropolarimetria e aplicação de radioisótopos
rotatória,
O Programa de Investigação

Enzimologia (1929)

Alcenoicases











fumarico-hidratase (fumarase)
fumarico-amoniacase (aspartase) e as aconitases
Esterases (colinesterase)
Tiaminase
Fosfatase
Urease,
Glicerofosfatase
Tirosinase
Ensaios de actividade enzimática de alguns enzimas em condições fisiológicas e
patológicas (doença, lesões operatórias)
Interpretação do mecanismo da acção exercida pelos agentes bacteriostáticos e
de outros medicamentos sobre o metabolismo fermentativo
Metabolismo lipídico (1949, 1962-)
Enzimologia

Fumarase


O enzima fumarase foi descobeto em 1919 por Einbeck e em 1921, Battelli e Stern
demonstraram a sua existência, classificando-o como um enzima que catalisa a hidratação do
ácido fumárico mediante a formação de ácido málico levógiro (l-malato)
Entre 1931 e 1937, a “escola” confirmou a existência deste equilíbrio, e o enzima
incluiu-se noutro grupo enzimático passsando a designar-se por fumáricohidratase.

Este resultado surgiu na sequência de vários estudos realizados no Instituto
nos quais foram encontradas várias fumarases e poucas hidratases, e pelos
conhecimentos que existiam na época sobre a importância do ciclo
degradativo dos glúcidos
 Havia assim todo o interesse em alterar a nomenclatura enzimática,
colocando a fumarase no grupo das alcenoicases, à semelhança da
aspartase. A proposta foi internacionalmente aceite. Para além disso, a
“escola” confirmou a existência da reacção reversível
Enzimologia




Aspartase
A Aspartase foi descoberta em 1926 por Quastel e Woolf numa preparação
de E. Colie e em várias bactérias e microorganismos, assim como nalgumas
células vegetais.
A “escola” desde 1936 realizou estudos análogos sobre o equilíbrio
biocatalítico com os sistemas da aspartase e das aconitases em simultâneo
com os da fumarase, levando-a a propor que o enzima que catalisava a
reacção de transformação do ácido fumárico em ácido l-aspártico era do
mesmo tipo da fumarase.
Actualmente o enzima está incluído no grupo das liases, l-aspartato amónialiase, (EC 4.3.1.1). e aspartase é uma designação não recomendada.
Enzimologia





Aconitases
Em 1937 Martius e Knoop assumiam que a fumarase seria o enzima actuante sobre
o ácido cis-aconítico
A partir de 1938 a “escola” de Jacobsohn envolveu-se nesta problemática parecendolhe pouco provável que esta hipótese estivesse correcta, dada a alta especificidade
deste enzima comprovada anteriormente por esta “escola” e por outros grupos de
investigação.
Mostraram a existência de uma aconitase específica que fazia hidratação do ácido cisaconítico em ácido cítrico e propuseram a existência de duas aconitases diferentes, as
aconitases  e , que hidratam o ácido cis-aconítico, com formação, respectivamente
do ácido isocítrico e cítrico.
Estes resultados foram demonstrados por Martius no mesmo ano (1940) de forma
independente.
Enzimologia

Aconitases



À semelhança da aspartase e da fumarase, as
aconitases deveriam ter uma constituição
holoproteica
Estes trabalhos contribuiram de alguma forma para
reforçar algumas ideias sobre reacções parciais
envolvidas no ciclo dos ácidos tricarboxílicos proposto
por Krebs em 1936.
Conduziram a “escola” ao estabelecimento de novos
pressupostos sobre o mecanismo da biocatálise em
geral.

Polonowski, M., Biochimie Médicale, (Masson et Cie, Paris,
1947), pp.447.
Enzimologia - Colinesterase e
Tiaminase




Sistemas enzimáticos que actuavam sobre o
metabolismo da vitamina B1 (pouco conhecidos na
época)
A escola utilizou a mesma estratégia dos enzimas
anteriormente referidos mas não obteve o mesmo
sucesso.
Anteriormente a escola de Marck Athias através de Moniz
de Bettencourt e seus colaboradores, tinha apenas
estudado o fenómeno do ponto de vista fisiológico.
A “escola” de Kurt Jacobsohn propôs-se estudar a acção
da aneurina sobre a hidrólise da acetilcolina, in vitro e
supôs existir um equilíbrio variável entre a colina, a
aneurina e os seus derivados acetilados, a acetilcolina e
a acetilaneurina.
Enzimologia - Colinesterase




Actualmente atribui-se a designação trivial de colinesterase à
acilcolina hidrolase (EC 3.1.1.8).
Este enzima não é a verdadeira colinesterase: fazia parte do grupo
das pseudo-colinesterases, designação actualmente abandonada.
O enzima que a “escola” procurava, a verdadeira “colinesterase,”
(EC. 3.1.1.7), ou seja, o acetilcolina esterase, é o enzima
actualmente conhecido como sendo uma transferase, o acetilcolina
transferase (EC. 2.3.1.6),o enzima responsável pela acetilação da
colina.
A “escola” dedicou-se ao estudo enzimático deste enzima
estabelecendo algumas das suas propriedades específicas no que
diz respeito à inibição e à competição de vários substratos pelo
centro activo e interpretou a sua acção do ponto de vista da
bioquímica comparada, atribuindo ao enzima funções biocatalíticas
mais amplas, para além de tecer considerações a respeito da
catálise mista.
Enzimologia - Tiaminase


Se no caso da acetilcolinesterase, a hidrólise da
acetilcolina era contrabalançada pela sua síntese
catalisada por outro enzima específico, devia
admitir-se a existência de um equilíbrio dinâmico
análogo no que respeita à hidrólise da tiamina,
nos organismos vivos.
Nesta época, Kurt Jacobsohn embora
considerasse a colina acetiltransferase como
enzima hidrolítico, já deveria ter a ideia de que
existiria uma reacção de possível acetilação, que
não envolveria este enzima.
Enzimologia - Tiaminase


Actualmente conhecem-se também duas
tiaminases, a tiaminase I (EC. 2.5.1.2) e a
tiaminase II (EC. 3.5.99.2).
A primeira está incluída no grupo transferases
(das alquil), e catalisa uma reacção de
tranferência do grupo metilo da tiamina para a
primidina; a última, está incluida no grupo das
hidrolases —actuando nas ligações ester,— e
seria, provavelmente, o enzima que a “escola”
procurava.
Enzimologia -Tiaminase


A existência deste enzima conduziu à hipótese
de algumas avitaminoses, anteriormente
atribuídas a fenómenos de carência, poderem
talvez ser atribuídas à existência de um enzima
presente nos alimentos, que inactivasse a
tiamina.
Foi esta a hipótese perseguida pela “escola” de
Kurt Jacobsohn, realizando estudos sistemáticos
sobre a difusão do sistema catalítico, sobre o
mecanismo que inactiva a vitamina B1 e sobre a
resistência do biocatalisador a várias substâncias
tóxicas, a antibióticos e à “água pesada.”
Enzimologia -Tiaminase

A escola estudou as propriedades específicas deste sistema
enzimático, e interpretou a sua acção do ponto de vista da
bioquímica comparada, atribuindo a este enzima, funções
biocatalíticas mais amplas.
 As avitaminoses não se deveriam atribuir apenas a carências
alimentares, mas também à possibilidade do enzima poder
“bloquear a actividade vitamínica,” no organismo vivo.

Sobre esta influência mútua entre biocatalisadores, vários
estudos foram realizados no laboratório da “escola”.
Efectuaram-se ensaios que pretendiam estudar a influência
que vários enzimas teriam sobre vitaminas e hormonas,
verificando-se situações de sinergia ou de antagonismo
 Vitaminas hidrossolúveis de oxi-redução
 Insulina
 Estrogéneos sintéticos

Além destes estudos enzimáticos conduzidos in vitro, foram
também efectuados estudos in vivo
 placenta humana
 outros órgãos e organismos caracterizados por condições
fisiológicas particulares.
A equipa e o Programa de
investigação em enzimologia
Fumarase
“
Colinester
erase”
Pedro da Cunha
*
*
A. Cruz
*
*
F. Bello Pereira
*
J. Tapadinhas
*
Manuel Soares
*
*
*
Manuela Costa
“Tiamina
se”
*
*
*
*
J. Rosado
Renato Leal
*
*
M. Carmo Anta
M. Rodrigues Cardoso
Aconitase
*
*
*
*
Fosfatase
*
M. Cruz
M. Deodata
Aspartas
e
*
*
*
O reconhecimento Internacional

Euler, H. v.; Franke, W.; Nilson, R.; Zeile, K.,
Die Katalasen und Die Enzyme der Oxydation
und Reduktion, (München, Verlag von J. F. Bergmann,
1934)
O reconhecimento Internacional
Oppenheimer, C., Die Fermente
und ihre Wirkungen, (Haag, Verlag, 1936), Sup. I

Metabolismo Lipídico




Os estudos realizados pela “escola” de Kurt Jacobsohn, baseiam-se no
conhecimento existente do metabolismo lipídico da época e datam de 1949.
“escola” apenas se circunscreveu à análise do processo de “fermentação”
de ácidos gordos insaturados, à semelhança do que se tinha efectuado
sobre as hidratases e as fumarases anteriormente referidas.
Definiram assim o grupo de enzimas que actuava sobre as ligações duplas,
como alcenoicases e estabeleceram um protocolo de caracterização dos
parâmetros cinéticos que envolviam o equilíbrio das reacções por elas
catalisadas: a temperatura, o estado coloidal das preparações, etc.
A partir destes estudos a “escola” passou a estudar sistematicamente a
partir de 1962, a influência exercida por vários iões em várias vias da
lipogénese lipídica e outras vias relacionadas, com o objectivo de obter um
maior conhecimento acerca dos mecanismos regulatórios nos quais estes
iões podiam influenciar o metabolismo lipídico.

Jacobsohn, K., Azevedo, M. D., “Sur la Fermentation des Acides Gras Insaturés,”
Archives Portugaises des Sciences Biologiques, 10, (1949), 86-88.
Metabolismo Lipídico


Estudo da influência de vários iões marcados
radioactivamente
Era objectivo da “escola”, analisar os aspectos
relativos às alterações provocadas por alguns
iões no metabolismo lipídico (ácidos gordos,
triacilgliceróis, fosfolípidos, colesterol e
acetoacetato



halogéneo-flúor, cloro, bromo e iodo
ião amónio
alguns metais alcalinos como o lítio, o sódio, o
potássio, o rubídio, e o césio
Metabolismo Lipídico

Esta linha de investigação não teve o
mesmo impacto que a linha de
investigação em enzimologia por dois
motivos essenciais:


Renato Leal falece em 1977 e não teve
possibilidade de dirigir os trabalhos de
investigação que tinha iniciado em 1962
Kurt Jacobsohn já estava um pouco desligado
do grupo de investigação pois estava a 2 anos
da reforma
Seguidores de K. Jacobsohn na
Faculdade de Ciências
Impacto da investigação do IRC,
no IGC

O Instituto Rocha Cabral acolheu a investigação
inicial realizada no âmbito da microbiologia por
investigadores que a partir de 1964, vieram a
integrar o Instituto Gulbenkian de Ciência




Nicolau van Uden
Isabel Spencer
outros
O intstituto serviu de estímulo à criação de um
instituto de investigação próprio (IGC), em 1966
e de um grupo de investigação em Biologia
liderado por N. Van Uden e I. Spencer, em 1967
Algumas Reflexões



Kurt Jacobsohn assinou a primeira página da história da
bioquímica em Portugal
Fê-lo inaugurando uma tradição científica proveniente de um
dos principais centros de investigação de bioquímica do mundo
que foi pioneiro na emancipação da bioquímica na alvorada do
séc. XX
Deu continuidade às preocupações da época no âmbito do
metabolismo e especializou-se em enzimologia criando um
programa de investigação inovador e catalisador de seguidores
para a edificação de uma escola de investigação




Estabeleceu um programa coerente de investigação
Controlou alguns canais de difusão
Fez discípulos; deixou seguidores
Projectou a ciência portuguesa no mundo
Algumas reflexões

A escola foi bem sucedida durante cerca de duas décadas; a partir
de então foi sucessivamente perdendo capacidade de concorrer a
nível internacional e foi-se fachando em si mesma


Em 1979, quando deixou o grupo, apenas tinha 2 continuadores (M.
Deodata e R. Pinto)
No âmbito pedagógico não conseguiu impôr a bioquímica na
FCUL, não obstante o reconhecimento científico que Kurt
Jacobsohn e o seu grupo de investigação tinham conquistado.


Tudo indica que esta instituição não terá compreendido as vantagens que poderiam
advir da presença de um cientista com créditos firmados internacionalmente, na área
da enzimologia.
Só muito tardiamente Jacobsohn pôde ensinar bioquímica na FCUL

em 1964, a licenciatura em química passou a contemplar a especialização em
bioquímica

e, apenas em 1982 foi criada a licenciatura
Finalmente...
O facto de Kurt Jacobsohn ter tido uma formação especializada no estrangeiro foi
crucial para uma alteração das práticas científicas vigentes nas instituições portuguesas
por onde passou. Foi essa formação que lhe permitiu introduzir em Portugal novas
concepções da organização da investigação e metodologias de abordagem da
bioquímica, interpretadas e apropriadas localmente, de acordo com as características e
as limitações do meio científico nacional.
 As dificuldades financeiras que a escola sentiu ao longo de 50 anos foram
determinantes para uma ténue continuidade da excelência que grangeou durante os
primeiros 20 anos
 O conservadorismo da FCUL foi limitante para que Kurt Jacobsohn conseguisse
impôr aos seus pares a sua ambição: a de criar uma nova área científica numa
articulação perfeita entre a investigação e o ensino

Descargar

A historical perspective of Biochemistry in Portugal by Isabel Amaral